Minha experiência como vendedor no Mercado Livre tem sido uma sequência repetida de frustrações, prejuízos e sensação constante de injustiça. Já enfrentei devoluções de produtos novos que voltaram abertos e desvalorizados, compradores que alegaram defeitos inexistentes, reclamações baseadas em erro de uso e um sistema que, em vez de analisar os fatos com seriedade, simplesmente decidiu contra mim sem qualquer critério técnico real. Em todas essas situações, fiz minha parte corretamente: enviei produtos testados, lacrados e em perfeito estado. Ainda assim, fui tratado como o responsável pelo problema.
Depois de passar por isso mais de uma vez, fica difícil ignorar a verdade mais incômoda de todas: o erro não é apenas da plataforma — é meu também, por continuar insistindo em vender em um ambiente que já demonstrou repetidamente não oferecer segurança, equilíbrio ou respeito ao vendedor. É insistir em um sistema que penaliza quem age corretamente e protege quem não entende, não verifica ou simplesmente não se responsabiliza. É continuar confiando em uma estrutura que já provou ser falha, desequilibrada e, na prática, medíocre na forma como trata quem sustenta o próprio marketplace.
Existe um momento em que a frustração deixa de ser surpresa e passa a ser previsível. E quando o prejuízo deixa de ser exceção e passa a ser parte do processo, fica claro que o problema não é um caso isolado — é o próprio sistema.
O Mercado Livre se consolidou como uma das maiores plataformas de e-commerce da América Latina com uma promessa simples e poderosa: segurança para quem compra. Essa promessa funcionou. Milhões de pessoas passaram a comprar online com confiança, sabendo que poderiam devolver um produto sem dificuldade caso algo desse errado. O problema é que, enquanto o comprador ganhou proteção absoluta, o vendedor passou a operar em um ambiente onde sua boa-fé deixou de ser presumida.
Existe uma falha estrutural silenciosa no modelo. O sistema foi desenhado para eliminar o risco do comprador, mas não para equilibrar esse risco com o vendedor. Na prática, isso significa que basta o comprador alegar que um produto “não funciona” para que todo o peso da responsabilidade recaia imediatamente sobre quem vendeu. Não importa se o produto era novo, lacrado, testado e enviado em perfeito estado. Não importa se existem evidências técnicas de que o item funciona corretamente. A prioridade é encerrar a reclamação rapidamente, e isso quase sempre significa aceitar a devolução.
O mais preocupante é que o sistema não diferencia defeito real de erro de uso. Produtos de tecnologia, como memórias, processadores e outros componentes, exigem conhecimento técnico básico. Muitas falhas relatadas não são defeitos, mas sim incompatibilidades, configurações incorretas ou uso inadequado. Ainda assim, a consequência é a mesma: o produto é devolvido, agora aberto e desvalorizado, e o vendedor arca com o prejuízo. O item que antes era novo se torna usado, e o prejuízo financeiro é inevitável.
Esse modelo cria um incentivo perigoso. Ele ensina, na prática, que o comprador não precisa ter responsabilidade técnica ou cautela. Se algo der errado — mesmo que seja por falta de conhecimento — basta devolver. Não existe consequência. Não existe responsabilização. O custo desse erro é transferido integralmente para o vendedor, que perde valor, tempo e margem, mesmo tendo feito tudo corretamente.
Com o tempo, isso cria um ambiente onde vender deixa de ser uma atividade baseada em confiança e passa a ser uma atividade baseada em tolerância ao prejuízo. O vendedor precisa aceitar que, em algum momento, sofrerá uma devolução injusta. Precisa aceitar que um produto novo pode voltar usado. Precisa aceitar que sua palavra, sua evidência técnica e sua honestidade têm menos peso que uma simples alegação.
O impacto disso vai além do financeiro. Existe um desgaste psicológico real em saber que o sistema não é equilibrado. Que você pode agir corretamente em todas as etapas e ainda assim ser penalizado. Que a plataforma que deveria mediar a relação de forma justa, na verdade, opera com uma presunção automática contra você.
O paradoxo é evidente. O Mercado Livre depende completamente dos vendedores. Sem vendedores, não há produtos. Sem produtos, não há compradores. E sem compradores, não há plataforma. Ainda assim, o sistema atual trata o vendedor como o elemento mais facilmente sacrificável da equação. Ele é o amortecedor que absorve os erros, as indecisões e até a falta de conhecimento técnico do comprador.
Proteger o comprador é correto. Mas abandonar o vendedor não é proteção, é desequilíbrio. Um sistema saudável protege ambos os lados, analisa evidências técnicas com seriedade e reconhece que a boa-fé deve existir em ambas as direções. Quando apenas um lado é protegido, o outro deixa de ser um parceiro e passa a ser apenas um recurso explorável.
Se esse desequilíbrio continuar, o resultado inevitável será a erosão da confiança do próprio vendedor na plataforma. E quando o vendedor perde a confiança, ele aumenta seus preços para compensar o risco, reduz sua oferta ou simplesmente deixa de vender. No final, o custo volta para o próprio ecossistema.
Porque confiança não pode ser unilateral. Ela precisa ser mútua. E hoje, para muitos vendedores, essa confiança já não existe mais.
